Artigo
A competência número um é arriscar-se
Graciela Selaimen
9 min
17 ago 2026
Graciela Selaimen
Jornalista, mestre em Comunicação e Cultura e ativista brasileira, reconhecida como uma das pioneiras na defesa dos direitos digitais, governança da internet e justiça social no Brasil. É fundadora e diretora executiva do Instituto Toriba
Há um conceito do futurista Sohail Inayatullah que considero uma pedra basilar na minha formação em estudos de futuros: os futuros usados. São visões de futuros herdadas de outros contextos, de outras épocas, de outros imaginários, que adotamos sem perceber e que continuam orientando nossa imaginação muito depois de terem perdido a validade. Um exemplo clássico é o planejamento urbano de Los Angeles dos anos 1950 exportado para Bangkok nos anos 1990, produzindo congestionamentos lendários. Em nível pessoal, vemos isso acontecer quando a visão de futuro de um pai constrange as possibilidades de futuros dos filhos. São futuros de segunda mão, apresentados como se fossem novos.
Ando usando essa lente para olhar dois campos que, em tese, deveriam ser aliados naturais e quase nunca se falam: o dos estudos de futuros e o da justiça social e climática. Trabalho no cruzamento entre os dois, e com uma certa frequência encontro organizações em ambos os campos que adotam pressupostos e narrativas que me parecem requentadas ou ultrapassadas. Nessas horas, desconfio que muitos atores nestes dois universos estão operando e projetando futuros a partir de futuros usados que ainda não pararam para examinar.
Comecemos pelo campo de futuros, que é onde a pergunta talvez incomode mais — porque é justamente o campo que deveria ter alguma imunidade contra isso. Quem trabalha com foresight estratégico e estudos de futuros aprende cedo que futuro é um campo de possibilidades aberto, plural, multidimensional. E ainda assim, quando se olha para as salas mais proeminentes onde se desenha futuros — de consultorias especializadas, de departamentos de prospectiva das grandes empresas, as que produzem relatórios de tendências que circulam em Davos —, a pluralidade parece encolher. Se o futuro é aberto, o acesso à sala nem tanto. Em geral, quem não está na sala tende a aparecer no cenário, sobretudo como variável de oportunidades ou riscos: migrantes climáticos como ameaça à segurança, juventude periférica como novos consumidores, o Sul Global como mercado emergente a ser ocupado.
Me pergunto o que aconteceria se adotássemos o exercício que o próprio Inayatullah propõe, a CLA, para descobrir o que move, lá no fundo, uma grande consultoria de futuros. Abaixo dos repertórios e referências informacionais, dos métodos, dos sistemas, quais são as imagens que sustentam essas estruturas? Eu arriscaria uma imagem, sem fechar a questão: a do explorador que avista terra primeiro. O futuro como território a descobrir, à espera de quem chegar antes, plantar a bandeira e reportar o que viu.
Proponho a mesma pergunta ao meu próprio campo — o das organizações de justiça socio-ambiental e da filantropia. Abaixo dos discursos públicos de resistência à opressão, das teorias de mudança, dos indicadores de impacto, das redes de relações, que mito estará trabalhando? Arrisco outra, igualmente incompleta: a do resgate, do herói lutador e salvador que combate as injustiças. Mesmo na versão contemporânea e mais cuidadosa, se a gente troca “salvar” por “apoiar protagonismos”, talvez algo da estrutura permaneça: há quem sofre, há uma urgência, há uma intervenção que precisa chegar a tempo.
O que me parece valer a pena notar, ainda como hipótese, é que essas duas imagens — a do explorador e a do herói salvador — talvez compartilhem uma gramática mais funda do que qualquer um dos dois campos gostaria de admitir: a de que o futuro está em outro lugar, e a tarefa é alcançá-lo a tempo. Um conjunto de atores corre para a fronteira antes dos concorrentes; outro, corre para proteger as vítimas antes que seja tarde. Os dois na lógica da corrida contra o relógio. Ambos perseguem certezas, ou sinais para chegar a elas, perdendo a oportunidade de transitar num leque de mundos possíveis a cultivar.
E aqui chego ao que de fato me interessa dizer. Sair de um futuro usado não é um problema técnico. Nenhum método, sozinho, tira ninguém de lá. Porque o futuro usado não é só uma ideia velha na cabeça, é um arranjo de poder no mundo, é um modo de operação. Ele tem origem numa leitura de alocação de poder: o cliente que paga pela consultoria, o conselho que aprova o plano, o financiador que desenha o edital, a linhagem profissional que ensinou você a fazer “do jeito certo”. Largar um futuro usado significa, quase sempre, contrariar alguém que tem interesse em mantê-lo de pé. Por isso gosto de pensar que caminhos libertadores dessas lógicas sejam a imaginação e a desobediência — e acho que elas andem juntas. Imaginar fora do futuro usado é, por definição, um ato de indisciplina. E a indisciplina, no mundo real, muitas vezes tem custos importantes: cliente, contrato, prestígio, financiamento, pertencimento.
O que me leva a uma dimensão que eu gostaria de ver no centro da formação de quem trabalha com futuros e também de quem trabalha com mudança social. Para mim, a primeira competência de um futurista e de um ativista transformador não deveria ser dominar metodologias, no primeiro caso, e agendas políticas no segundo, mas sim a capacidade de arriscar-se. A coragem de chegar numa sala de pauta, de conselho, de pitch, e dizer “o futuro que estamos assumindo aqui não serve mais, e eu não tenho o substituto pronto” — e sustentar o desconforto que vem depois. Ensinamos método como se o problema fosse de ferramenta. Abraçar genuinamente o risco e habitar o desconforto de conversas profundas e incertas deveria ser o exercício e a reflexão que dão o ponto de partida na nossa formação.
O trabalho de José Ramos ajuda a ver por que isso importa tanto. Ramos parte de uma premissa simples e de consequências enormes: ideias vêm de visões de mundo. Não se chega a soluções novas trabalhando mais dentro do enquadramento velho; não se acrescenta nada a um copo já cheio. O método que ele chama de Experimentação Antecipatória não começa pela ideação — começa por nomear e desafiar o futuro usado que está na sala, e só depois deixar nascerem ideias de raízes novas. E culmina em experimentos reais, pequenos, no mundo. Mas o ponto que Ramos nem sempre nomeia, e que me parece o nervo de tudo, é que cada uma dessas etapas é um ato de desobediência exigindo coragem. Ele insiste que experimento de verdade não é um projeto piloto bem formatado, enquadrado em padrões que conhecemos — um experimento real tem consequência e pode falhar. Poder falhar é a parte que assusta, e é exatamente a parte que importa. Ramos descreve o experimento como uma forma-semente de futuros preferidos: um pedaço vivo do que poderia ser, posto no solo do que é. A semente não argumenta a favor da floresta; ela se torna floresta. Plantar é correr risco, aceitar o tempo de gestação que cada coisa pede e segurar a hipótese com leveza, sem garantia de colheita.
E é aqui que muitos futuristas, eu inclusive, teriam mais a aprender com as abordagens do Afrofuturismo, das tradições antigas do Sul Global, muito mais do que com frameworks importados do Norte. Porque essa ideia — de que imaginar é um ato relacional, arriscado, com obrigações — não é invenção contemporânea nem posição de nicho de um grupo de acadêmicos decoloniais. A escritora e griot digital Abi Awomosu, que passou quase duas décadas dentro das maiores empresas de tecnologia do mundo, formula isso com precisão: a Maioria Global (termo que desloca o eixo da geografia para a demografia, e nomeia como maioria o que o Norte segue tratando como periferia) tem, há milhares de anos, sistemas que trabalham com inteligências e saberes nos quais a imaginação é a faculdade que constrói mundos e futuros.
Há algo na estrutura de conhecimento que Awomosu descreve que conversa diretamente com futuros no plural. Ela invoca o que a cosmologia aborígene chama de Everywhen — passado, presente e futuro co-presentes, ancestrais ainda ativos, descendentes já participando do que está sendo decidido agora. Não como metáfora, ela insiste, mas como a estrutura real de como sentido e obrigação funcionam quando não são cortados pela linha do tempo colonial. O sonho e a imaginação, nessa tradição, assim como em outras tradições indígenas, não é posse ou capacidade individual de quem sonha e imagina; é um espaço comum que uma comunidade cuida através das gerações. Não é uma particularidade aborígene: a mesma gramática — imaginação como bem comum sob custódia, e não propriedade de quem a sonha — organiza tradições que nunca se encontraram. Nas cosmovisões iorubás, o babaláwo não é dono da sabedoria de Ifá. Ele a carrega como um cuidador, a transmite nas iniciações, e responde por ela diante da linhagem e dos orixás. Comparado a isso, o explorador que corre para fincar a bandeira no futuro novo e o herói que se mantém em jornada de salvação, proteção e luta parecem duas figuras solitárias, presas na mesma lógica da qual dizem romper — o tempo linear que aprisiona e a visão dualista de opressor e oprimido. Bàyó Akómoláfé fala bem disso quando vem ao Brasil propor um mergulho em ìdòwú: as ferramentas conceituais mais usadas para interpretar, enfrentar e oferecer respostas às crises contemporâneas — políticas, climáticas, tecnológicas, democráticas — foram construídas para um mundo que já não existe. Organizando a realidade em pares de opostos (progresso/colapso, inovação/regulação, vitória/derrota, presente/futuro), essas ferramentas comprimem a imaginação justamente quando mais precisamos dela.
A pergunta que fazemos com Bàyó, neste momento, é: o que surge entre os mundos quando as estruturas enrijecidas deixam de se sustentar? Talvez o encontro entre esses campos não seja uma troca de ferramentas — futuros emprestando métodos à justiça, a justiça emprestando perguntas aos futuros. Talvez seja mais simples e mais difícil: nenhum dos dois sabe ainda como imaginar sem o anseio de chegar primeiro ou a tempo. E é aqui que as cosmovisões dos povos originários do Sul Global têm algo que nenhum framework do Norte alcança — não uma técnica melhor, mas a lembrança de que imaginar sempre foi um ato relacional, com obrigações, que se faz diante de uma linhagem e não para vencer um relógio. Imaginar assim custa. Custa a certeza, custa o lugar na sala, às vezes custa o contrato. Mas é o custo que devolve o sentido: ao arriscar a imaginação, lembramos quem somos — e de quem viemos.
Graciela Selaimen
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*Pesquisadores da Universidade de Turku, na Finlândia, definiram consciência de futuros em 5 dimensões: a capacidade de considerar as consequências futuras das próprias ações; sentir-se empoderado para influenciar o curso dos acontecimentos; imaginar que as coisas poderiam ser diferentes; pensar de forma holística e sistêmica; e se preocupar com futuros que vão além do próprio interesse imediato.
Referências citadas:
1. Polak, Fred. The Image of the Future. Tradução e condensação de Elise Boulding. San Francisco: Jossey-Bass/Elsevier, 1973. Disponível em:
https://storyfieldteam.pbworks.com/f/the-image-of-the-future.pdf
2. Boulding, Elise. “The Dynamics of Imaging Futures.”, 1978. Disponível em:
https://www.researchgate.net/publication/310505955_The_Dynamics_of_Imaging_Futures_1978
3. Inayatullah, Sohail. “Six Pillars: Futures Thinking for Transforming.”, 2008. Disponível em:
https://www.metafuture.org/library1/FuturesStudies/Six-pillars-Foresight-2008.pdf
4. Ahvenharju, Sanna; Minkkinen, Matti; Lalot, Fanny. “The Five Dimensions of Futures Consciousness.” Finland Futures Research Centre, University of Turku, 2018. Disponível em:
https://www.utu.fi/en/university/turku-school-of-economics/finland-futures-research-centre/research/education/future-consciousness